(Cinema) A sétima arte e a Psicanálise

Definimos o cinema como a sétima arte por ser a arte plástica em movimento. Ou seja, aquela que consegue congregar todas as outras em uma só.


A psicanálise e o cinema têm muito em comum. A psicanálise é contemporânea do cinema, ambos surgiram no final do século XIX, causaram impacto e constroem-se na singularidade do sujeito. Já transcorreram mais de cem anos de encontros e afinidades entre o poder das palavras que movimentam sujeitos no processo analítico e a arte da imagem em movimento.


Essa relação da sétima arte com a psicanálise se deve ao papel atuante que ambas têm no inconsciente humano, pois o cinema tem a capacidade de tocar o homem em seu espaço mais íntimo e puro da sua natureza.

Freud, já dizia que o artista transcende o psicanalista.


Sabemos que a psicanálise já nasce abraçada à arte através de alusões a mitos, como o de Édipo, por sua a vez o cinema em seu contexto histórico, é um marco da humanidade que eleva as criações artísticas ao longo de seu crescimento e se constrói a partir delas.

Como a cinematografia é caracterizado pela união de fotogramas que dá ideia de movimentos de cenas. A psicanálise reúne fragmentos imagéticos proveniente do inconsciente dos pacientes, formando uma cena para chegar ao ponto crítico do problema relatado pelo paciente. Outro tema, em que se assemelham, são a relação que ambos possuem com os sonhos.


As personagens -


A nossa vida é cheia de “personagens” que representamos. Personagens às vezes verdadeiros, pois sempre se exercem funções necessárias para a sobrevivência.

As “personagens” que sempre encobrem a verdadeira natureza de cada um, pois não somos conscientes de que os criamos, apenas representamos para nos defender do verdadeiro Eu que somos.

Somos feitos de uma tessitura psíquica agradável, bondosa, generosa, amorosa; somos feitos também, desde o nascimento, de aspectos desagradáveis, às vezes perversos e destrutivos, que escondemos dos outros e principalmente de nós próprios - daí a criação de personagens encobridores da nossa essência.

O Homem, como costumo dizer, é “Deus e o Diabo na terra do sol” parafraseando nosso Glauber Rocha. Somos anjinhos e capetinhas desde a nossa infância. S. Freud chegou a afirmar que as crianças são polimorfas perversas, mas também desenvolveu, a partir da clínica, meios para civilizar e humanizar o “animal-humano” -


A autoanálise e os cineastas -

Muitos, cineastas como Federico Fellini, Ingmar Bergman, Andrei Tarkovsky, Stanley Kubrick, entre outros, se inspiraram em conceitos psicanalíticos para realizar seus filmes, alguns costumam fazer autoanálise com frequência. A linguagem cinematográfica possibilitou que a psicanálise fizesse uma relação com a sua própria evolução, se adaptando e unido seus tratamentos, com as mudanças sociais e culturais.

Para muitos estudiosos a junção entre psicanálise e cinema é um casamento, quase perfeito. Tudo, porque a psicanálise lida com dores, frustrações e sentimentos que estão presos dentro do nosso inconsciente. O cinema trabalha com esses elementos de maneira arrebatadora, pois cria cenas que conseguem refletir situações reais, que estão conexas com a noção do “eu” presente em cada um de nós. O cinema e psicanálise compactuam ideias e ideologias, algo que enriquecem as narrativas e ajuda no tratamento de doenças como depressão e outras patologias.

A psicanálise e a sétima arte se unem na irracionalidade, quando um não procura explicar o outro, e este outro não tenta obedecer à lógica que julga ser psicanalítica. O poder dos cineastas está na catarse que ele provoca no espectador. Nenhuma outra arte é capaz de retratar os sonhos com tanta fidelidade como os filmes.

Quem nunca, assistiu uma produção audiovisual, onde se deparou com pelo menos um ou mais personagens que lhe provocaram um misto de sentimentos e de alguma maneira te impactou. Esses efeitos instigados por imagens cinematográficas, só reafirmam a célebre frase do psicanalista e filósofo francês Felix Gatarri, que dizia que o cinema é o divã do pobre e que muitos filmes são catalisadores de emoções e reflexões sobre a vida. Porque, na verdade o cinema é uma arte que estuda a alma humana.



A Relação com os sonhos -


Assistir a um filme é semelhante a sonhar acordado e, segundo Freud, o sonho é a estrada real para o conhecimento do inconsciente. Froemming (2002) atenta que os pacientes falam, no decurso de sua cadeia associativa, além de sonhos, de filmes que viram e das impressões que lhes causaram determinadas cenas. Expressões “era como num sonho” e “era como num filme” são recorrentes e parecem parte de uma experiência vivida. O cinema joga com leis da linguagem que Freud descreve como mecanismos fundamentais na elaboração onírica: condensação e deslocamento e a consideração à figurabilidade - transformação das ideias em imagens visuais. Recorrendo a Freud e Lacan a respeito da elaboração onírica, Magalhães (2008) tenta aproximar cinema e sonho a partir das questões suscitadas pelos sonhos de angústia e pelo pesadelo, pois alguns filmes nos fazem sonhar para proteger nosso sono e alguns nos acordam, despertam e instigam. A autora também considera possível a aproximação entre cinema e sonho a partir de filmes que, como obra de arte, nos olham, nos perscrutam e interrogam. O cinema como obra artística, envolve as experiências do autor, dos atores, do diretor, o processo criativo, além da história que atende aos interesses culturais, sociais, à satisfação pulsional do sujeito. Através da imagem, o cinema inscreve-se na subjetividade do sujeito, visto que alia a palavra com a imagem, produzindo um obra ficcional que nos leva ao sonho, ao devaneio, às reflexões e ao entretenimento (SOARES, 2007). Zusman (1994) defende a ideia de que nada se parece mais com o funcionamento da mente que o cinema, que articula a imagem com o movimento, conferindo-lhes um sentido dinâmico e uma imediata apreensão. Para o autor, o cinema amplia a capacidade de sonhar do ser humano, instalando o recurso pictográfico, incorporando o diálogo lido ou falado e dá um salto gigantesco na medida que permite objetivar a mais subjetiva das experiências humanas.


Por Cássia Sarath



Referencias bibliográficas -

FREUD, Sigmund. Formulações sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental . Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, 1911, v. XII.

LAPLANCHE, Jean ; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

RIVERA, Tânia. Conexões: Cinema, arte & psicanálise. Módulo III. Minicurso set/dez 2007. Tribunal de Contas da União. Brasília-DF. Disponível em:

w.4shared.com/.../Conexes_-_Cinema_Arte__Psicanl.html – Acessado em: 18.04.2011.

ZUSMAN, Waldemar. Os filmes que vi com Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

SOARES, Luiz Fernando Guedes. Cinema e verdade, sonho e realidade psíquica. Revista Brasileira de Psicanálise. 2007. Disponível em: www.sbprj.org.br/site/triebv3_cinema.php. Acessado em: 14.05.2011

Carlos de Almeida Vieira - Médico psiquiatra, Psicanalista da SPBsb e da SBPSP (São Paulo), Membro da Federação Brasileira de Psicanálise - FEBRAPSI e da International Psychoanalytical Association - IPA



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