Fedro a Psicanálise e os Mitos

Introdução -


Não é sem razão que “Fedro” é considerado para muitos como o resumo da filosofia de Platão. É dada nessa obra uma precisão aos problemas fundamentais do pensamento humano, desenvolvendo idéias do mais alto interesse em relação à cultura filosófica e nesse sentido como psicanalista procuro fazer uma abordagem psicanalítica ao texto, tendo por base que a psicanálise procura entender todos os comportamentos inconscientes do homem e acreditando que para isso precisa avançar não somente a partir de um pensamento racionalista empírico mecanicista como também  a partir de uma visão como um todo interligando todas as pulsões entre si e entrelaçando todas as coisas com fundamentação estabelecendo uma associação mutua com o gênero do ser desvendando assim a sua essência .

Sócrates com a sua criação da dialética é considerado como um dos principais precursores da psicanálise , essa dialética apresenta em duas partes :

  • A ironia: Para demolir as certezas do seu interlocutor . Sócrates iniciava assim o seu método dialético com a ironia ,questionando tudo aquilo que o interlocutor apresentava como certeza .


  • A maiêutica :  “ O parto das idéias” – Depois da ironia , Sócrates realizava um “parto das idéias” com o interlocutor, onde os questionamentos faziam com que eles retirassem de si mesmos novas idéias e novos pensamentos, buscando o conhecimento e a verdade.      

Vejo nesse dialogo uma grande importância para o conhecimento do ser humano , fazendo nos a ter uma  reflexão sobre o saber amar , aprendendo antes de mais nada a conhecer a alma de todas as coisas, amando a si mesmo e conhecendo a si mesmo, para poder entender o que é o belo em si , equilibrando assim a sua alma. 


2- A psicanálise e os mitos

    Quando Platão fala da difícil tarefa do cocheiro (no mito da parelha alada) em conduzir a sua carroça puxada por dois corcéis; sendo um de natureza boa e o outro de natureza ruim, podemos traçar um paralelo com o conceito de Freud, em Id, Ego e superego, cabendo ao Ego a tarefa do cocheiro de intermediar as pulsões do id representado pelo corcel ruim com seus desejos carnais e os seus instintos humanos , por outro lado , o superego representado pelo corcel bom, representando a moral humana adquirida socialmente. Ambos falam do homem dividido entre o bem e o mal , os dois com a difícil tarefa de manter o equilíbrio da vida. A busca da verdade pela realidade vem do conhecimento dos fatos , essa busca racional significa buscar a verdade no interior do  próprio homem , encontrando a sua verdadeira essência , o seu verdadeiro “eu”. O psicanalista Jacques Lacan vê Sócrates no lugar do psicanalista que ensina a seus discípulos uma verdade que se furta à consciência deles .  

    Quando o uso do mito é utilizado para tentarmos compreender o  humano , notamos que destacam duas vertentes: Na primeira conforme as teorias de Freud e também do psicanalista Karl Abraham - os mitos são usados para demonstrar a existência de desejos , pulsões, “instintos”. Eles são criados então como ressonadores de desejos que precisam continuar escondidos na mente humana, produtora do mesmo processo de sonhos, devaneios, delírios,  fantasias, (inconsciente) , todos eles dissimulam as verdadeiras motivações  das pulsões ,buscando algum modo de descarregá-las. Na segunda vertente,os mitos podem ser vistos como modelos de subjetivação,  são eles que moldam a nossas mentes, no primeiro momento, nos criamos os mitos e eles nos servem, nós os vivemos .No segundo , eles nos criam, nós os servimos e eles nos vivem. No primeiro a ênfase é biológico e no segundo é cultural.

3- O Amor de Platão e sua terapêutica 

     No Fedro há dois discursos sobre o amor, tratado de forma de dialética  o primeiro discurso, o discurso de Lísias, o amor é tratado como um mal jogo, no segundo discurso, o discurso de Sócrates , o amor é um jogo sagrado.   

     O amor platônico não é igual ao amor tirano, que nos escraviza às paixões dos sentidos, proporcionando assim um total desequilíbrio. Acredito que o amor platônico é o mais importante auxiliar para aquele que busca atingir a perfeição, pois o movimento em relação à ela é a busca da verdade , o desprendimento do mundo sensível para o encontro do mundo inteligível . A verdade da nossa natureza é procurar o saber , nesse movimento da alma, ou seja nesse movimento para o bem , em busca da verdade , nos aproximamos de nós mesmos ,da nossa essência , e assim obtemos um  auto conhecimento para que possamos então viver em equilíbrio.Esse movimento é proporcionado pela dialética que tem uma função terapêutica muito importante para a restituição da saúde , a cura do corpo começa pelo equilíbrio da alma . É preciso cuidar do todo para cuidar das partes. E é pelo amor que alma encontra esse caminho .

4- As duas retóricas  

  • Retórica Sofista -No discurso de Lísias ,encontra-se um discurso retórico sofista na qual Platão combatia , onde procura destacar o seu artificialismo e a falta da ideia justa , acrescentando também o convencimento de Lísias para o seu publico. Platão faz nesse dialogo uma critica da retórica do seu tempo e demonstra a importância de substituí-la pela retórica filosófica , ou seja dialética .

  • Retórica filosófica – Para Platão a essência da filosofia recai sobre o processo da dialética , no qual a razão e a discussão levam progressivamente à descobertas de importantes verdades e do esclarecimento.


5- As duas fases da escrita

Na medicina de Hipócrates encontramos o conceito pharmakon, citado por Platão no Fedro .No presente texto , pharmakon é uma substancia , vegetal , anima ou mineral que ingerida ou aplicada sobre uma pessoa pode agir sobre 2 efeitos : - Como um medicamento , ou como um veneno , dois sentidos opostos.

     A substancia medicamentosa se torna o melhor pharmakon com o vínculo  de confiança que é estabelecida entre o medico e o paciente . O medico deve partilhar com o paciente o raciocínio clinico envolvido no decorrer da consulta , bem como a conclusão desse raciocínio.

      Na obra a “farmácia de Platão”, Jacques Derrida recupera o mito de Theuth , na qual a escritura é vista como um pharmakon , destacando o duplo sentido do termo, que tanto pode significar remédio , quanto veneno.

(...) Não há remédio inofensivo. O pharmakon não pode jamais ser simplesmente benéfico(...) A essência ou a virtude benéfica de um pharmakon não o impede de ser dolorosa . Essa dolorosa fruição ligada tanto à doença quanto ao apaziguamento é um pharmakon em si. Ela participa ao mesmo tempo do bem e do mal, do agradável e do desagradável. Ou, antes, é no seu elemento que se desenham essas oposições. (Derrida, 1987 p.56)

(...) Assim, se por um lado , a escritura leva ao esquecimento , por outro lado , ao trazer as marcas que registram a fala viva , permite a sua recuperação ,mesmo que o pai-autor não esteja presente .-Mesmo que ele esteja morto , o representarão mesmo que eles os esqueça ,eles levarão a sua fala , mesmo que ele não esteja mais lá para animá-los. Mesmo que esteja morto ,  e só um pharmakon pode deter um tal poder sobre a morte ,

Mais também em conluio com ela. O pharmakon e a escritura são, pois sempre uma questão de vida e de morte.(Derrida 1987 p.52) 

Platão na qualidade de pai dos discursos filosóficos escritos , propicia com eles uma rememoração “de dentro”graças ao esforço próprio , constitui remédio para a recordação proporcionando aos seus leitores um conhecimento verdadeiro .

6- Conclusão


   O desvio da alma propicia os desmandos das formas selvagens e o atrofiamento da parte racional , que representa o homem propriamente dito. E o que nos afasta da animalidade e ressalta nossa humanidade ,  (que aos olhos de Platão tem parentesco com os deuses ) é o caminho do conhecimento da verdade.  Platão aplica essa alegoria para compreender o mundo e nossa forma de conhecê-lo , separando os dois planos , um referente as coisas visíveis que alcançamos pelos órgão sensoriais e o outro referente ao plano inteligível que alcançamos pela razão e pela inteligência.

No ultimo grau desse plano podemos chegar ao conhecimento verdadeiro e à realidade na sua forma primeira e imutável .

Platão/Sócrates e  Hegel nas suas dialéticas –

Vimos que a dialética para Platão é o movimento da alma que marcha para a verdade buscando assim a sua essência dentro de si mesmo. 

Para Hegel – O ponto central da filosofia encontra-se na dialética da ideia , parte da  tese – ser , pura potencialidade o qual deve se manifestar na realidade através da antítese – não ser , também na contradição entre tese e antítese surge a síntese – vir –a – ser. Para Hegel o espírito é o retorno da ideia para si mesmo , dentro de uma liberdade absoluta.   Esse raciocínio é aplicado tanto na aquisição de conhecimentos quanto à aplicação dos processos históricos e políticos. 

Sócrates acreditava que toda a verdade estava no interior da pessoa, ele retirava todo o conhecimento necessário do próprio interior do individuo, através da sua dialética .

Estes princípios podem ser considerados validos dentro da nossa atualidade principalmente nos consultórios psicanalíticos, nos quais é utilizado o método dialético .



Cássia Sarath

7- Referências bibliográficas e bibliografia

Platão,          Fedro , SP. Martins claret ,trad . Alex Marins

W.Jaeger  ,    Paidéia –A formação do homem grego. SP :Herder,

Derrida,J  A farmácia de Platão  .trad.Rogerio da Costa 2 ed. SP Iluminuras

Roudinesco,Elisabeth,   Jacques Lacan .Esboço de uma vida,historia de um sistema pensamento SP Cia das Letras. 1994

Keppe,M.A.R., Histórico, teorias e técnicas da psicanálise .Sp Ed.inteligentes.2007

Freud, Sigmund ,  A Interpretação dos sonhos part ll Vol.l RJ Editora Imago 1972

Keppe ,Norberto , A medicina da alma- Medicina psicossomática ,SP. Ed Hemus 1967

Freud , Sigmund , Além do principio do prazer , psicologia de grupo e outros trabalhos , vol XVIII . obras completas RJ Ed Imago, 1976

Santos , M C A , Dialética e terapeutica no Fedro de Platão.


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